quarta-feira, 6 de março de 2013

O HOMEM DE QUEM NÃO DISSERAM NEM DIZEM BEM

Por Joaquim Letria 
OS NORTE-AMERICANOS estiveram à espera da morte de Hugo Chavez para porem mais ódio cá fora do que aquele que manifestaram nos 58 anos de vida do comandante. É natural que assim o tenham tratado e que continuem a tratá-lo desta forma, se reflectirmos um pouco acerca do que Chavez representou e, principalmente, fez na Venezuela. 
Os artigos sobre Chavez naturalmente que falarão sobre o golpe de estado que tentou liderar, da sua amizade com os irmãos Castro de Cuba, a sua intimidade com Putin e Ahmadinejad, recordarão o “porque no te callas?” do rei de Espanha e dos “diabos” de George Bush filho, na Assembleia da ONU. 
E, também naturalmente, estes e outros artigos não mencionarão a subida de 10,5 anos de educação em 2000 para 14,2 em 2011, nem se referirão à esperança de vida dos venezuelanos ter aumentado de 72 para 74,4 anos durante esse mesmo período. Quase de certeza que esses artigos falarão nas tentativas de Chavez aumentar a duração dos mandatos presidenciais e talvez o acusem de ser autoritário, como muitos lhe chamavam ditador. E esquecer-se-ão de referir que Chavez sempre foi democraticamente eleito com grandes margens de votos populares em votações maciças como nunca se haviam repetido na Venezuela em muitas outras décadas. 
Certamente que os artigos que se preparam sobre a Venezuela também criticarão as pobres condições das prisões venezuelanas, mas não se referirão ao facto do presidente agora morto ter perdoado aqueles que tentaram derrubar pela força o governo democraticamente eleito em 2002. 
Certamente que não se esquecerão de dizer que a Venezuela beneficiou da subida do preço do petróleo, mas é natural que omitam que utilizou esses rendimentos do petróleo para apoiar cidadãos de muitas nações, designadamente norte-americanos necessitados. 
Verdade que algumas coisas eram difíceis de nos porem a concordar com Chavez. Mas muito mais raras e sobretudo muito pouco honestas eram as coisas com que se podia concordar do que escreviam sobre o comandante Hugo Chavez e a sua Venezuela.
In Sorumbático, 7 de Março de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

NO ASPECTO NÃO ESTÁ O GANHO!

LEMBRAM-SE daquele diligente funcionário bancário em Montalegre que não deixou entrar um cliente na agência bancária que chefiava no Nordeste por estar mal vestido?! Um pobre dum cliente que tinha uma indústria de sucata, de onde se dirigia ao banco para depositar um cheque de cerca de 200 euros? 
O homem ia tão mal vestido que não parecia um industrial, para dizer a verdade, de acordo com a queixa que o pobre cliente do banco que José Roquette converteu em luso-espanhol apresentou na GNR, o diligente bancário não teve dúvidas! 
"O senhor parecia mesmo um romeno", terá dito o funcionário para explicar a sua confusão e a sua intolerância para os antigos súbditos de Ceausescu! 
Pois imaginem o que tão diligente funcionário do Santander-Totta, de terras transmontanas - e não são paragens quaisquer, Montalegre tem de dar-se ao respeito dos bancários, pois é a capital da região desse supremo sacerdote da banca que dá pelo nome de Armando Vara - diria a esse desgraçado que vos mostro sentado com aquele ar infeliz no metro de Nova York! 
O infeliz é só Sergey Brin, um dos homens mais ricos do mundo e entre os 20 mais poderosos do planeta! proprietário e número dois da Google! Imaginem-no em Montalegre, a querer is ao Santander-Totta! Não entrava! Com aquele aspecto?! O Sergey parece mesmo um industrial de sucata! 
Ver notícia [aqui]

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

MAIS UM ANO PERDIDO

DIFICILMENTE este nosso País sairá da crise se não conseguir alterar o ciclo inversor, recuperando-o, de modo a lograr a criação de trabalho intensivo. Há que reduzir a duração da austeridade, encurtando prazos que evitem mais graves tensões sociais, erradicando situações de grande injustiça e de desamparo social.
Dificilmente outras nações suportariam aquilo que se abateu anos a fio sobre Portugal: corrupção, incompetência, crise económica e ausência de séria liderança política. A perplexidade deveria ser ainda maior, se considerarmos o tempo e os parceiros a criar a débacle e as vagas e desonestas declarações semi-oficiais com que nos sussurram ao ouvido numa situação tão calamitosa que justificaria a formação dum Governo de Salvação Nacional que mostrasse com clareza que o Estado é um assunto demasiado sério para estar entregue a políticos de passagem.
2013 será mais um ano perdido quer no que toca a emprego, quer no que diz respeito a crescimento económico. E 2014 muito dificilmente poderá assinalar um dinamismo que crie postos de trabalho de modo bastante a devolver aos Portugueses a esperança perdida.
Assim, que pelo menos 2013 seja o ano do fim das convulsões financeiras, mais graças à acção do Banco Central Europeu do que devido às medidas propostas e adoptadas pelo nosso Governo. De qualquer modo, demorarão diversos trimestres até que essa estabilização se faça sentir na nossa economia real. Mais uns tantos trimestres para sobrevivermos à nossa custa.
In Sorumbático, 4 Fev 13

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

QUE ELES NOS DESCULPEM!

A POLÍTICA nacional dá mostras de grande frivolidade e irresponsabilidade, saltitando do dramatismo da tragédia para as piadas de mau gosto. Sem dúvida nenhuma que Portugal, enquanto nação, é muito superior à sua classe política, uma realidade que poderá fazer-nos perder algo de insubstituível, criando uma situação irreparável. 
No meio da confusão, do desconcerto, da incompetência e da intriga, vivem aqueles que geram artigos e comentários de encomenda, muitos deles sem nunca serem lidos e outros sem ninguém os ouvir. Muitos julgarão que tudo isto será prontamente esquecido, numa espécie de café-concerto que, com o tempo, não adianta nem atrasa. 
O grave é que o desemprego não pára, a educação não melhora, a saúde piora, os impostos aumentam, as contrapartidas diminuem, a economia verdadeira não arranca e a dívida externa cresce. Partidos e sindicatos movem-se à margem das leis, tentando cumprir os fins para que foram criados e existem, convencidos, uns e outros, de estarem a representar a vontade popular, a participação cidadã e o pluralismo ideológico.
Infelizmente, foram assaltados por quadrilhas organizadas, sem regras claras que regulem a concorrência democrática interna. Os partidos converteram-se em oligarquias imobilistas, agências de emprego para os medíocres e de colocações temporárias para os corruptos, criando uma podridão insuportável, de que há, cada vez mais, jovens atordoados a fugirem lá para fora. Que eles nos desculpem e que Deus os acompanhe!
In Sorumbático, 1 Fev 13

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

DEVIAM TER IDO À CATEQUESE!

“AS IDEOLOGIAS do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam (…) a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado”, criticou Bento XVI numa mensagem urbi et orbi, na qual acrescentou:
"Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime, inclusivamente, num capitalismo financeiro desregrado”. E o Sumo Pontífice disse ainda: 
“O liberalismo radical e a tecnocracia querem que o crescimento económico se consiga mesmo à custa da erosão da função social do Estado, e das redes de solidariedade da sociedade civil. O trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não são adequadamente valorizados”. 
Entre outras frases, o Papa proclamou “ser necessário um novo modelo de desenvolvimento e uma nova visão da economia”. Se o chefe da Igreja Católica já vai aqui, onde poderiam ir os sociais-democratas e os democratas cristãos!? Que pena que os nossos não tenham ido à catequese das “Js” onde aprenderam tão pouco! 
In Sorumbático, 30 Jan.2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

UM DESEJO IMPRATICÁVEL

JACQUES Delors foi o criador da moeda única europeia, o euro. Perante a actual crise, Delors defende a revisão do tratado europeu. O socialista francês vai até ao ponto de criticar o governo de Paris por não ter apoiado Angela Merkel na urgência de se rever o tratado.
Delors diz que se o tratado não for revisto, e se não se apaziguar a Grã Bretanha, que voltou às ameaças de sair, a Europa comunitária acabará por dar com os burrinhos na água e transformar-se-á numa simples zona de comércio livre. 
Em Dezembro de 2007 foi aprovado o tratado de Lisboa, já depois de se ter alargado a UE. Este tratado, depois de diversas tentativas malogradas, não foi mais do que uma habilidade para se fingir que o tratado era muito diferente da Constituição Europeia, chumbada em referendo na França e na Holanda, em 2005. 
Agora, o que Delors quer é impraticável, com a comunidade alargada a 27 países e a exigência de unanimidade. Poucos de nós cá estaríamos para aplaudir um resultado positivo ao cabo de décadas de negociações… 
In Sorumbático 28 Jan.2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

ELE SEJA CEGUINHO

QUANDO tomou balanço para vir a ser primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho disse que não nos aumentaria os impostos (oh!oh!oh!) e jurou que iria cortar os gastos, as gorduras e os desperdícios do Estado (ih! ih! ih!)
Ele fosse ceguinho se não seria isso mesmo que ia fazer para aliviar a vida a todos nós! Ao fim de ano e meio no Governo, fez exactamente o contrário e as únicas coisas que não pioraram foram aquelas em que o Governo não fez raspas.
Cortou salários, pensões, aumentou impostos, criou taxas, empobreceu famílias e deitou no desemprego e na miséria mais uns bons milhares de portugueses, enquanto muitos outros tiveram de zarpar para verem se arranjam com que pagar a bucha lá fora, na nova qualidade de emigrantes. Hoje em dia, mais de dois milhões de portugueses enxameiam a Europa à procura de trabalho ou a fazerem limpezas e a servirem à mesa.
A recessão, o encerramento de empresas e o desemprego continuam a ser galopantes. Mas o Estado não se contém nos gastos. Os institutos, as fundações, os Boys & Girls, os especialistas e assessores em ministérios e gabinetes de secretários de Estado, as empresas municipais, as negociatas, as mordomias, os juros pagos pela dívida pública, os bancos privados que vêm tirar mais dinheiro aos contribuintes públicos são territórios livres de qualquer austeridade.
Os trabalhadores, os pensionistas e as pequenas empresas sabem bem quanto o regabofe lhes custa. São eles os grandes castigados pelo preço dos privilégios de quem continua a mamar na teta do Estado.
In Sorumbático, 25 Jan.2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

AS JÓIAS DE ESTIMAÇÃO

HÁ DOIS anéis que custa muito aos portugueses desfazerem-se deles para ficarem com os dedos: a TAP e a RTP. 
 Uma e outra são verdadeiros símbolos e instrumentos do nosso ser colectivo, do nosso orgulho nacional, ambas indissociáveis do nosso conceito nacional. Não têm a ver com a EDP, a REN e a Ana, outras jóias de família que já fomos deixar no prego para comermos fiado mais algum tempo. A TAP e a RTP são diferentes. São também jóias de estimação, mas estas já eram de estimação da avó e da mãe. 
Vender agora, é vender ao preço da uva mijona, o que ainda custa mais, não fora essa, ao que nos dizem, uma necessidade absoluta. É pior do que penhorar para dar a sopa aos filhos. É ceder a prestamistas, mostrar o rabo a agiotas, facilitar a amigos, dar dinheiro por obséquio sem perguntar aos verdadeiros donos se autorizam, se acham o preço certo, se concordam com a política do “vão-se os anéis, mas fiquem os dedos”.
A gente até estaria disposta a fazer maiores sacrifícios se soubéssemos para quê, se acreditássemos nos vendedores e se confiássemos nos prestamistas. Mas a verdade é que, para mal dos nossos pecados, até há negócios destes em que confiamos mais nos credores… 
In Sorumbático, 23 Jan.2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A SINA DO MEXILHÃO


ÁGUA MOLE em pedra dura, tanto dá até que fura! Este velho ditado popular está a ser muito bem aplicado por alguns partidos e pelas suas ramificações no Poder Local, de modo a garantirem um rendimento exponencial escandaloso, por via indirecta, e ainda a satisfação de boa parte da clientela que é dominante e muito rendosa na penumbra dos financiamentos partidários.
Também aqui, apesar de se tratar de água doce e levar cloro e outros desinfectantes, quem se prejudica é o mexilhão… 
Muitas autarquias privatizaram o negócio da distribuição de água com resultados catastróficos para as populações. Na maioria destes casos, verificou-se que os acordos de privatização provocaram aumentos escandalosos nos preços pagos pelos consumidores.
Além do mais, e tal como em certos casos das PPP nas vias rodoviárias, ficaram também garantidas rendas fixas e décadas de grandes margens de lucros para os privados, ficando os prejuízos por conta dos orçamentos municipais.
Na existência dos monopólios públicos já se corriam grandes riscos, como muitos de nós podem, infelizmente, comprovar. No caso de monopólios privados, só uma regulação e fiscalização de grande rigor e independência poderiam garantir um preço justo para um serviço de qualidade, premissas muito raras, pouco prováveis e só excepcionalmente praticadas no nosso País.
Acresce, ainda, que as concessões municipais foram e serão destinadas àqueles que dominam todos os negócios públicos locais, especialmente os construtores e os promotores imobiliários. Uma dúvida pouco consistente mas que perdura, correndo o risco de se transformar em certeza, é o aumento dos preços e a pior qualidade de serviços para as populações e consumidores e a repercussão desta realidade em outros sectores, vitimizados pelo fracasso que se abaterá com maior violência  sobre as finanças dos municípios.
 (In Sorumbático, 21 Jan.2013)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

NEM CYRANO NEM OBÉLIX ESCAPAM!...

O IMENSO, único actor Gérard Dépardieu veio chamar a atenção de todo o Mundo em geral e da França em particular para o fenómeno da fuga de milhares de contribuintes franceses para países de fiscalidade mais moderada, a qual acontece há muitos anos e se acentuou desde que os socialistas reocuparam o poder em Paris. 
Gérard transferira o seu domicílio fiscal de França para a Bélgica, internando-se cerca de 600 metros para lá da fronteira, e ali comprando uma casa que passou a ser a sua residência fiscal quando foi atingido pela grosseria do primeiro ministro, a ministra da cultura e o ministro do trabalho de Hollande. 
Dépardieu limitara-se a fazer o que milhares de outros haviam feito e a repetir o que geralmente acontece quando um determinado país sobe os seus impostos. David Niven viveu anos e anos no Sul de França, Paulo Coelho vive em França com residência fiscal no Brasil, Anthony Hopkins naturalizou-se norte-americano e vive nos Estados Unidos, etc., etc., até aos milhares de outros, anónimos, que vivem na América do Sul, no Sul da Europa, em Andorra, no Luxemburgo, Lichenstein ou Principado de Mónaco, para fazerem exactamente o mesmo que Gérard Dépardieu fez sem ouvirem um primeiro-ministro de casca grossa classificá-los de “desprezíveis”! Algo que justificadamente nem Cyrano de Bergerac nem Obélix gostaram de ouvir nem sequer mereciam… 
A insensibilidade dos burocratas franceses fez com que Putin, presidente do Governo dum país que venera o teatro, reconhece a cultura e admira profundamente a figura de Dépardieu, lhe oferecesse a cidadania, concedendo-lhe um passaporte russo e abrindo-lhe uma república da federação para ali construir uma casa num bosque. Alguns actores de meia leca, da babugem do PSF, também vieram zurrar em público contra Dépardieu, mas para esses bastou uma carta de Catherine Deneuve no diário “Liberation”. 
 A actriz meteu-os na ordem e recordou a dimensão artística e cívica de Dépardieu. Este, por seu turno, numa carta aberta, recordou a sua vida de trabalho desde os 14 anos de idade, os 185 milhões de euros pagos ao fisco ao longo duma vida de trabalho fiscalmente impoluta, os 80 empregos que actualmente assegura com a sua produção artística, os mais de 100 postos de trabalho que mantém nos seus restaurantes e nas herdades onde produz os seus vinhos. 
 Todos os anos saem de França uma média de 800 “exilados fiscais”, e banqueiros e empresários começam a dar sinal de desconforto apesar do Tribunal Constitucional ter chumbado os impostos mais elevados com que as fortunas eram visadas pelo Governo Este procura ainda criar um imposto de 75% sobre rendimentos acima do milhão de euros. 
Admite-se que o número de “fugitivos” aumente, o que geralmente acontece sempre num determinado país onde se aumentam muito os impostos.
In Sorumbático, 18Jan 2013