quarta-feira, 13 de março de 2013

DA TRAGÉDIA À ÓPERA BUFA

A VIDA política dá mostras de preocupante incoerência. Passamos com a maior facilidade da tragédia para a ópera bufa. A verdade é que nos deram cabo da Economia, destruíram o resto da Indústria, narcotizaram a Agricultura mas, apesar da incompetência, do desleixo e da maldade que combinam para nos fazer mal, o País continua a dar a aparência de não desistir de funcionar, a Nação apresentando-se muito por cima da sua triste classe política, parecendo até que se manterá de maneira indefinida, enquanto não lhe quebrarem algo insubstituível.
Alguns julgam que se assim continuarmos tudo isto passará ao esquecimento, incluindo os episódios que marcam este triste género que nos obrigam a suportar, faz agora duas décadas, mais coisa menos coisa. O grave é o desemprego continuar a aumentar, a educação não melhorar, a assistência médica piorar, os impostos aumentarem, o que é nosso ser cada vez menos e a vontade de aqui viver não parar de diminuir. 
Sem regras, nem ética, nem ideias definidas que potenciem o crescimento e regulem a concorrência interna, os partidos são oligarquias imobilistas cada vez mais parecidos com quadrilhas apostadas em arranjar empregos, ajudar os medíocres e servirem-se dos corruptos. É verdade que os ratos fazem o baile quando os gatos estão de folga. Mas também é preciso pendurar guizos nos gatos…Doutra maneira, como estamos todos a ver, não abandonamos nunca o disparate económico e a tontice política. 
In Sorumbático – 13 Mar 13

segunda-feira, 11 de março de 2013

BANCOS E POLÍTICA DÃO RAIA

Por Joaquim Letria
NÓS, PORTUGUESES de má pinta, metemo-nos no negócio da banca e agora podendo todos gabar-nos que somos banqueiros, assobiamos às botas das nossas economias, enterradas no BPN, na Caixa Micaelense, na Caixa Madeirense, no BANIF e no BPP e palpita-nos que não tarda nada e metem-nos também na Caixa Geral de Depósitos e mais um bocadinho no BCP. Melhor que nós só o Joe Berardo, o Oliveira Costa e o sobrinho do Isaltino, que é taxista mas faz excelentes depósitos na Suiça.
Esta coisa de meter dinheiro nos bancos dá mau resultado. Em Espanha e na Alemanha já se viu que mais vale jogar no euromilhões ou mesmo fazer a raspadinha do Santana Lopes.A Espanha, por via disso, recebeu 40 mil milhões de euros para ajudar os seus bancos em dificuldades.A maior parte destes bancos espanhóis é composta por caixas económicas regionais, muito chegadas aos partidos que mandam nas regiões autónomas.
Os 40 mil milhões de euros que foram para os bancos espanhóis também foram acompanhados por um memorando de entendimento, que hoje em dia ninguém empresta dinheiro a ninguém sem esses memorandos que são muito parecidos – diz quem já os leu –com as letrinhas mais miúdas das apólices de seguros. Em Espanha, os partidos indicaram muitos gestores incompetentes (e alguns parece que também corruptos) e muitos projectos económicos deram com os burrinhos na água.
Também na Alemanha há caixas regionais públicas ligadas aos governos dos estados que não primam pela boa gestão. Dizem que estão carregadinhas de “activos tóxicos”,olhem para a Renânia-Westfália!
Por estas e por outras é que a sra. Merkel se opõe a que o Banco Central Europeu, apesar de lá ter a doçura do Dr. Constâncio, supervisione essas caixas da zona euro. A Angelita sabe bem que misturar bancos na política dá quase sempre raia. Foi coisa que o Kholl não se cansou de lhe repetir…
In Sorumbático – 11 Mar 13

quarta-feira, 6 de março de 2013

O HOMEM DE QUEM NÃO DISSERAM NEM DIZEM BEM

Por Joaquim Letria 
OS NORTE-AMERICANOS estiveram à espera da morte de Hugo Chavez para porem mais ódio cá fora do que aquele que manifestaram nos 58 anos de vida do comandante. É natural que assim o tenham tratado e que continuem a tratá-lo desta forma, se reflectirmos um pouco acerca do que Chavez representou e, principalmente, fez na Venezuela. 
Os artigos sobre Chavez naturalmente que falarão sobre o golpe de estado que tentou liderar, da sua amizade com os irmãos Castro de Cuba, a sua intimidade com Putin e Ahmadinejad, recordarão o “porque no te callas?” do rei de Espanha e dos “diabos” de George Bush filho, na Assembleia da ONU. 
E, também naturalmente, estes e outros artigos não mencionarão a subida de 10,5 anos de educação em 2000 para 14,2 em 2011, nem se referirão à esperança de vida dos venezuelanos ter aumentado de 72 para 74,4 anos durante esse mesmo período. Quase de certeza que esses artigos falarão nas tentativas de Chavez aumentar a duração dos mandatos presidenciais e talvez o acusem de ser autoritário, como muitos lhe chamavam ditador. E esquecer-se-ão de referir que Chavez sempre foi democraticamente eleito com grandes margens de votos populares em votações maciças como nunca se haviam repetido na Venezuela em muitas outras décadas. 
Certamente que os artigos que se preparam sobre a Venezuela também criticarão as pobres condições das prisões venezuelanas, mas não se referirão ao facto do presidente agora morto ter perdoado aqueles que tentaram derrubar pela força o governo democraticamente eleito em 2002. 
Certamente que não se esquecerão de dizer que a Venezuela beneficiou da subida do preço do petróleo, mas é natural que omitam que utilizou esses rendimentos do petróleo para apoiar cidadãos de muitas nações, designadamente norte-americanos necessitados. 
Verdade que algumas coisas eram difíceis de nos porem a concordar com Chavez. Mas muito mais raras e sobretudo muito pouco honestas eram as coisas com que se podia concordar do que escreviam sobre o comandante Hugo Chavez e a sua Venezuela.
In Sorumbático, 7 de Março de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

NO ASPECTO NÃO ESTÁ O GANHO!

LEMBRAM-SE daquele diligente funcionário bancário em Montalegre que não deixou entrar um cliente na agência bancária que chefiava no Nordeste por estar mal vestido?! Um pobre dum cliente que tinha uma indústria de sucata, de onde se dirigia ao banco para depositar um cheque de cerca de 200 euros? 
O homem ia tão mal vestido que não parecia um industrial, para dizer a verdade, de acordo com a queixa que o pobre cliente do banco que José Roquette converteu em luso-espanhol apresentou na GNR, o diligente bancário não teve dúvidas! 
"O senhor parecia mesmo um romeno", terá dito o funcionário para explicar a sua confusão e a sua intolerância para os antigos súbditos de Ceausescu! 
Pois imaginem o que tão diligente funcionário do Santander-Totta, de terras transmontanas - e não são paragens quaisquer, Montalegre tem de dar-se ao respeito dos bancários, pois é a capital da região desse supremo sacerdote da banca que dá pelo nome de Armando Vara - diria a esse desgraçado que vos mostro sentado com aquele ar infeliz no metro de Nova York! 
O infeliz é só Sergey Brin, um dos homens mais ricos do mundo e entre os 20 mais poderosos do planeta! proprietário e número dois da Google! Imaginem-no em Montalegre, a querer is ao Santander-Totta! Não entrava! Com aquele aspecto?! O Sergey parece mesmo um industrial de sucata! 
Ver notícia [aqui]

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

MAIS UM ANO PERDIDO

DIFICILMENTE este nosso País sairá da crise se não conseguir alterar o ciclo inversor, recuperando-o, de modo a lograr a criação de trabalho intensivo. Há que reduzir a duração da austeridade, encurtando prazos que evitem mais graves tensões sociais, erradicando situações de grande injustiça e de desamparo social.
Dificilmente outras nações suportariam aquilo que se abateu anos a fio sobre Portugal: corrupção, incompetência, crise económica e ausência de séria liderança política. A perplexidade deveria ser ainda maior, se considerarmos o tempo e os parceiros a criar a débacle e as vagas e desonestas declarações semi-oficiais com que nos sussurram ao ouvido numa situação tão calamitosa que justificaria a formação dum Governo de Salvação Nacional que mostrasse com clareza que o Estado é um assunto demasiado sério para estar entregue a políticos de passagem.
2013 será mais um ano perdido quer no que toca a emprego, quer no que diz respeito a crescimento económico. E 2014 muito dificilmente poderá assinalar um dinamismo que crie postos de trabalho de modo bastante a devolver aos Portugueses a esperança perdida.
Assim, que pelo menos 2013 seja o ano do fim das convulsões financeiras, mais graças à acção do Banco Central Europeu do que devido às medidas propostas e adoptadas pelo nosso Governo. De qualquer modo, demorarão diversos trimestres até que essa estabilização se faça sentir na nossa economia real. Mais uns tantos trimestres para sobrevivermos à nossa custa.
In Sorumbático, 4 Fev 13

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

QUE ELES NOS DESCULPEM!

A POLÍTICA nacional dá mostras de grande frivolidade e irresponsabilidade, saltitando do dramatismo da tragédia para as piadas de mau gosto. Sem dúvida nenhuma que Portugal, enquanto nação, é muito superior à sua classe política, uma realidade que poderá fazer-nos perder algo de insubstituível, criando uma situação irreparável. 
No meio da confusão, do desconcerto, da incompetência e da intriga, vivem aqueles que geram artigos e comentários de encomenda, muitos deles sem nunca serem lidos e outros sem ninguém os ouvir. Muitos julgarão que tudo isto será prontamente esquecido, numa espécie de café-concerto que, com o tempo, não adianta nem atrasa. 
O grave é que o desemprego não pára, a educação não melhora, a saúde piora, os impostos aumentam, as contrapartidas diminuem, a economia verdadeira não arranca e a dívida externa cresce. Partidos e sindicatos movem-se à margem das leis, tentando cumprir os fins para que foram criados e existem, convencidos, uns e outros, de estarem a representar a vontade popular, a participação cidadã e o pluralismo ideológico.
Infelizmente, foram assaltados por quadrilhas organizadas, sem regras claras que regulem a concorrência democrática interna. Os partidos converteram-se em oligarquias imobilistas, agências de emprego para os medíocres e de colocações temporárias para os corruptos, criando uma podridão insuportável, de que há, cada vez mais, jovens atordoados a fugirem lá para fora. Que eles nos desculpem e que Deus os acompanhe!
In Sorumbático, 1 Fev 13

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

DEVIAM TER IDO À CATEQUESE!

“AS IDEOLOGIAS do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam (…) a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado”, criticou Bento XVI numa mensagem urbi et orbi, na qual acrescentou:
"Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime, inclusivamente, num capitalismo financeiro desregrado”. E o Sumo Pontífice disse ainda: 
“O liberalismo radical e a tecnocracia querem que o crescimento económico se consiga mesmo à custa da erosão da função social do Estado, e das redes de solidariedade da sociedade civil. O trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não são adequadamente valorizados”. 
Entre outras frases, o Papa proclamou “ser necessário um novo modelo de desenvolvimento e uma nova visão da economia”. Se o chefe da Igreja Católica já vai aqui, onde poderiam ir os sociais-democratas e os democratas cristãos!? Que pena que os nossos não tenham ido à catequese das “Js” onde aprenderam tão pouco! 
In Sorumbático, 30 Jan.2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

UM DESEJO IMPRATICÁVEL

JACQUES Delors foi o criador da moeda única europeia, o euro. Perante a actual crise, Delors defende a revisão do tratado europeu. O socialista francês vai até ao ponto de criticar o governo de Paris por não ter apoiado Angela Merkel na urgência de se rever o tratado.
Delors diz que se o tratado não for revisto, e se não se apaziguar a Grã Bretanha, que voltou às ameaças de sair, a Europa comunitária acabará por dar com os burrinhos na água e transformar-se-á numa simples zona de comércio livre. 
Em Dezembro de 2007 foi aprovado o tratado de Lisboa, já depois de se ter alargado a UE. Este tratado, depois de diversas tentativas malogradas, não foi mais do que uma habilidade para se fingir que o tratado era muito diferente da Constituição Europeia, chumbada em referendo na França e na Holanda, em 2005. 
Agora, o que Delors quer é impraticável, com a comunidade alargada a 27 países e a exigência de unanimidade. Poucos de nós cá estaríamos para aplaudir um resultado positivo ao cabo de décadas de negociações… 
In Sorumbático 28 Jan.2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

ELE SEJA CEGUINHO

QUANDO tomou balanço para vir a ser primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho disse que não nos aumentaria os impostos (oh!oh!oh!) e jurou que iria cortar os gastos, as gorduras e os desperdícios do Estado (ih! ih! ih!)
Ele fosse ceguinho se não seria isso mesmo que ia fazer para aliviar a vida a todos nós! Ao fim de ano e meio no Governo, fez exactamente o contrário e as únicas coisas que não pioraram foram aquelas em que o Governo não fez raspas.
Cortou salários, pensões, aumentou impostos, criou taxas, empobreceu famílias e deitou no desemprego e na miséria mais uns bons milhares de portugueses, enquanto muitos outros tiveram de zarpar para verem se arranjam com que pagar a bucha lá fora, na nova qualidade de emigrantes. Hoje em dia, mais de dois milhões de portugueses enxameiam a Europa à procura de trabalho ou a fazerem limpezas e a servirem à mesa.
A recessão, o encerramento de empresas e o desemprego continuam a ser galopantes. Mas o Estado não se contém nos gastos. Os institutos, as fundações, os Boys & Girls, os especialistas e assessores em ministérios e gabinetes de secretários de Estado, as empresas municipais, as negociatas, as mordomias, os juros pagos pela dívida pública, os bancos privados que vêm tirar mais dinheiro aos contribuintes públicos são territórios livres de qualquer austeridade.
Os trabalhadores, os pensionistas e as pequenas empresas sabem bem quanto o regabofe lhes custa. São eles os grandes castigados pelo preço dos privilégios de quem continua a mamar na teta do Estado.
In Sorumbático, 25 Jan.2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

AS JÓIAS DE ESTIMAÇÃO

HÁ DOIS anéis que custa muito aos portugueses desfazerem-se deles para ficarem com os dedos: a TAP e a RTP. 
 Uma e outra são verdadeiros símbolos e instrumentos do nosso ser colectivo, do nosso orgulho nacional, ambas indissociáveis do nosso conceito nacional. Não têm a ver com a EDP, a REN e a Ana, outras jóias de família que já fomos deixar no prego para comermos fiado mais algum tempo. A TAP e a RTP são diferentes. São também jóias de estimação, mas estas já eram de estimação da avó e da mãe. 
Vender agora, é vender ao preço da uva mijona, o que ainda custa mais, não fora essa, ao que nos dizem, uma necessidade absoluta. É pior do que penhorar para dar a sopa aos filhos. É ceder a prestamistas, mostrar o rabo a agiotas, facilitar a amigos, dar dinheiro por obséquio sem perguntar aos verdadeiros donos se autorizam, se acham o preço certo, se concordam com a política do “vão-se os anéis, mas fiquem os dedos”.
A gente até estaria disposta a fazer maiores sacrifícios se soubéssemos para quê, se acreditássemos nos vendedores e se confiássemos nos prestamistas. Mas a verdade é que, para mal dos nossos pecados, até há negócios destes em que confiamos mais nos credores… 
In Sorumbático, 23 Jan.2013