sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pensem um bocadinho…

TEMOS provas de sobejo da incompetência dos políticos europeus de hoje. Cada cavadela, cada minhoca. Daí não parecer mal se não os deixarmos esquecerem-se da importância geo-estratégica de Chipre, ultimamente por eles tão maltratada, a ponto de haver muitas interrogações e algumas dúvidas pertinentes. 
Quanto maior for o desespero dos cipriotas e menor e mais arrogante for a ajuda dos Governos europeus, mais elevada é a probabilidade de Chipre procurar apoio na Rússia. Obviamente que essa ajuda não será incondicional. Em troca dela, compreensivelmente Moscovo procurará obter as maiores e mais duráveis garantias. 
Os depósitos dos indivíduos e das empresas da Rússia, feitos sem qualquer controle, permitiram a expansão dos bancos cipriotas. O turismo russo é uma notável fonte de rendimento para aquela ilha mediterrânica. Por outro lado, os russos já estabeleceram consideráveis interesses nos mal explorados campos de gás cipriotas. 
Uma maior importância da Rússia em Chipre compensaria Moscovo duma eventual perda de influência na Síria, outro dos pontos de acesso ao Mediterrâneo. Por outro lado, o seu maior envolvimento na exploração do gás natural permitiria a Moscovo reforços significativos no fornecimento de energia à Europa Ocidental, além de inegáveis ganhos para as reservas financeiras internacionais da Rússia. 
Ao fazer estas contas, os Europeus, se tiverem quem lhes sopre aos ouvidos, poderão recordar-se da História do Século XX e lembrar-se do que aconteceu quando, na década de 50, a Europa recusou ao Cairo a ajuda para a construção da barragem de Assuan e um melhor aproveitamento do Nilo. O que os europeus então conseguiram foi submeter o Egipto a mais de 20 anos de influência soviética, alterando a geo-política da região. 
A Europa tem interesse em ajudar Chipre a estabilizar a sua situação e em evitar que a simpática ilha mediterrânica dê cabo do que resta da eurozona e ajude a escaqueirar o euro. Os burocratas de Bruxelas e de Berlim, e os seus serventuários, que pensem um bocadinho. Também lhes pagam para isso...
In Sorumbático, 5 Abril 2013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Brigada da Moral

AQUILO que cada um faz no seu quarto, se as mulheres devem, ou não, serem donas dos seus corpos e se pessoas do mesmo sexo podem, ou não, casar-se umas com as outras anda por aí nas bocas do mundo. Mas aquilo que os poderosos fazem nos gabinetes com as vidas dos outros não parece preocupar ninguém.
A brigada da moral, a par dos sobressaltos de que dão sinais, conseguiu pôr a economia de joelhos, roubando poupanças de milhões de cidadãos e sujeitando os restantes ao desemprego e à incerteza. Mas pior que tudo é a impunidade, o que os estimula a terem-no feito em 2008 e voltarem a fazê-lo agora.
Mas estes poderosos grupos que tomaram conta do nosso planeta não deixam as coisas ao acaso. Matam onde lhes dá lucro matar e, paulatinamente, preparam o futuro. Note-se, a título de exemplo, que só nos Estados Unidos da América, os Republicanos e os Democratas gastaram em 2012 um record de 12 mil milhões de dólares em campanhas eleitorais, que lhes permitiram estabelecer as pontes e conquistar os testas de ferro que vão manobrar a partir de 2014. Óptimo proveito do resultado do Supremo Tribunal de Justiça ter aberto as comportas da política ao grande capital, ao decidir que sob a Primeira Emenda as grandes companhias são “pessoas”. 
Também o JPMorgan-Chase, o maior banco da América, está em melhor forma do que nunca, liderando a luta contra a lei (Dodd-Frank) que poderia impedir novo “crash” e os resgates da banca à custa dos contribuintes. O mesmo JPMorgan-Chase, o maior banco da América que terá enganado os accionistas e o público na famosa “Baleia de Londres” a qual ditou 6 biliões de euros de perdas, em 2012. 
A Brigada da Moral não quer que as mulheres mandem nos seus corpos nem que pessoas do mesmo sexo se casem entre si. Mas não se importam nem um bocadinho que os multibilionários escaqueirem os direitos dos outros e destruam a democracia desde que isso lhes renda o que eles desejam. 
In Sorumbático, 3 Abril 2012

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A confiança é que está em falta

NAS ACTIVIDADES financeira e económica há um elemento essencial: a confiança. Natural e próprio de quem tem de confiar, muitas vezes, o valor do trabalho duma vida e o futuro de seus filhos a terceiros que não precisariam de ser mais do que pessoas estranhas. 
O resgate a Chipre, as patacoadas do presidente do Eurogrupo, as argoladas do sr. Hollande, as birras do mister Cameron e a insensibilidade da sra. Merkel, a matreirice do BCE, a impreparação do novo FMI, tudo isto aliado às novas e desconhecidas colheitas de banqueiros e bancários, fez perder o mínimo necessário de confiança no sistema.
A estas questões reais podemos juntar a incompetência dos técnicos e a irresponsabilidade dos políticos: ninguém pode hoje confiar em ninguém, sujeitos como estamos ao “vale tudo” e à “banha da cobra” que nos impingem a todo o momento.
Chipre veio recordar-nos e deixar bem presente a incerteza do euro. A moeda única não parece justificar a enganadora solidez com que se apresenta a todos os que a vêem como uma alternativa credível ao dólar e a outras moedas europeias que persistem. 
A banca, instituição outrora confiável, está hoje assaltada por duvidosos desconhecidos, delegados dos partidos, comandada por marqueteiros de pacotilha em quem muito dificilmente se pode confiar. A “União monetária” também já foi chão que deu uva. Hoje, o euro parece mais sólido na Alemanha e na Holanda do que em Portugal ou na Itália, tal como ali os depósitos se perfilam mais seguros do que aqui.
A verdade é que muitos já não confiam as suas economias à banca e alguns também já não dormem descansados com o dinheiro no colchão, receosos das manigâncias e do terrorismo fiscal. É uma pena ter passado a haver tão pouca gente em quem se possa confiar... 
In Sorumbático, 1 Abril 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

Exportamos rubros tomates e produzimos menos lixo



ALGUNS leitores mais atentos notaram já, acertadamente, que esta semana inaugurei nestas crónicas um novo ciclo: o de elogiar a crise, o desemprego, a pobreza e as dificuldades, embora não tenha ganho ainda balanço suficiente para conseguir dizer bem do Governo.
Não ter carro, não ter casa e não ter trabalho, - dizia eu  ironicamente, está bom de ver – tem o seu encanto, pelo que nos liberta de IMI e de rendas,  de preços de gasóleo e de super, de chefes, patrões, horários e  colegas. Ser pobrezinho parece ser um descanso, não se pensa em Chipre não se sonha com a Merkel, quer-se lá saber do Obama!
Eis, então, o meu contentamento posterior a essa crónica ao encontrar novos factos que parecem louvar a crise e as dificuldades a que os portugueses estão entregues. Noto, em primeiro lugar, o êxito que é para as nossas Relações Exteriores o nosso bem-amado ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, ir ao Japão acompanhado por nove fábricas de transformação de tomate e mais outras seis empresas desse sector. Os nipónicos nunca tinham vista nada assim!
Paulo Portas não leva pasteis de nata nem rissóis de camarão consigo, mas não se esquece do rubro tomate lusitano, sector que já consegue pôr no estrangeiro 10 % da sua produção, esforço de assinalar que, por certo, encherá de orgulho a centrista ministra Assunção Cristas, que tanto se esforça por fazer render a agricultura.
Mas a crise não se fica por aqui em boas notícias. Vejam só que a produção do lixo urbano caiu em 2012 para os níveis mais baixos desta década. Dentro de dois anos, em consequência da diminuição do consumo e da produção industrial, o lixo urbano em Portugal deverá cair ainda, antes de 2015, para menos de 12%! Ou seja, mesmo com o lixo que os políticos dão sinais de continuar a produzir, a crise e as dificuldades asseguram que Portugal produzirá muito menos poluição!      
In Sorumbático, 29 de Março de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Sem carro, sem casa, sem trabalho

ESTOU a ficar na dúvida, sem saber a quantas é melhor andar. Eu explico :Estou sem carro, sem casa e sem trabalho. 
Há 50 anos, dava de frosques, punha as pernas a caminho, dava corda aos sapatos, falava com três ou quatro pessoas e alguma coisa se iria arranjar. 
Há 30 anos, ficava desesperado, agarrava no resto do dinheiro, pedia mais algum emprestado e emigrava. Logo se veria o que sairia na rifa, mas alguma coisa se haveria de conseguir. 
Hoje, sem carro, sem casa e sem trabalho, nesta idade, é um descanso!
Não me preocupam, de todo, os preços dos combustíveis. Não quero saber se o gasóleo desce e a gasolina sobe, ou se o Hollande vai pôr uma coisa e outra ao mesmo preço. Não gasto combustível e de transportes públicos ando o mínimo possível. 
Como não tenho casa e vivo por favor numa parte de casa com serventia de cozinha, quero lá saber do IMI ou preocupa-me lá a nova lei das rendas! Néspias! Tenho é de me dar bem com os meus vizinhos, para não me subirem a renda nem me despejarem do quartinho alugado, porque este é um sítio muito central para ir a pé para os biscates que me vão aparecendo. 
Sem trabalho é um descanso. Sou patrão de mim próprio, trabalho segundo o meu próprio horário, não aturo patrões estúpidos nem chefes incompetentes e não tenho de gramar colegas preocupados com o euromilhões, com os filhos nem com o Futebol Clube do Porto. 
Por fim, como não tenho dinheiro para pôr no banco, durmo descansado, que nem um anjinho, sem me preocupar com a zona euro, se vamos ou não voltar ao escudo, não sonho com a Merkel, não penso em Chipre e quero que o Constâncio e o Gaspar dêem uma volta ao bilhar grande… 
Sem carro, sem casa e sem trabalho é um descanso! Porque pensam que cada vez há mais gente a viver assim?!
In Sorumbático, 27 Março,2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

Mortífero Prémio Nobel

O PRESIDENTE Obama é o Prémio Nobel da Paz politicamente responsável pelo maior número de civis mortos em acções militares das tropas de que ele é o comandante supremo. O mundo inteiro viu-o também a assistir em directo à morte de Bin Laden por uma força Seal de Marines sob o seu comando. Agora, Barack Obama prepara-se para ser o presidente dos drones, os aviões não tripulados que, à distância e telecomandados, matam ou destroem alvos previamente escolhidos sob as ordens do presidente. 
Interessantes as perguntas e respostas acerca do poder do presidente mandar abater cidadãos americanos em solo americano sem uma decisão de qualquer tribunal.”O Presidente não matou ninguém assim, ainda”, respondem aqueles que falam por ele. O presidente diz “não matei ainda ninguém e não tenho a intenção de mandar matar americanos, mas pode ser preciso” . Os críticos não se calam: a resposta certa do presidente deveria ter sido apenas “Não!”. 
Bill Maher, um seu apoiante, reconhece que os drones têm sido excessivamente utilizados em todo o mundo. Mas o mais esclarecedor de tudo, para nós, é o reconhecimento de Maher de que “nem todos os ataques de drones são maus. Algumas pessoas precisam mesmo de ser mortas. É como com a pena de morte! O que é preciso é matar a gente certa!”
Entre a Segurança Nacional e os Direitos Humanos, estes perdem para aqueles. Os especialistas compreendem e justificam as decisões dos presidentes, como aquelas que no Paquistão e no Afeganistão mataram milhares de civis inocentes. Se fôssemos presidente faríamos a mesma coisa. Metem-nos numa pequena sala interior, sem janelas, mostram-nos uma lista dos maus e filmes secretos de tipos que nos convencem que são terroristas, e lembram-nos que o nosso papel é proteger a democracia, as instituições, o povo, a nação. Perante isto que se pode fazer de diferente do que eles fazem?!” 
Veremos o que o futuro nos traz e as partidas que pode pregar ao sucessor de W.Bush…para nos proteger, naturalmente... 
In Sorumbático, 25 de Março 2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

Os parabéns hoje devidos ao CCC que dá vida aos nossos corações

Por Joaquim Letria 
UMA COISA que eu gosto, nesta escrita de opiniões, é ter oportunidade de dizer bem de alguém ou de alguma coisa. Infelizmente, surgem mais ocasiões para criticar e denunciar o que está mal do que ser encomiástico para o que quer que se queira. Também é verdade que os leitores preferem a maledicência e o escárnio, o que, por si só acaba por justificar que muita gente da que anda a escrever por aí escolha essa linha para ter mais audiência, acumular mais leitores e ser mais compensado quando se cala ou elogia. Nada disto é errado, se conduzido com equilíbrio e seriedade, mas infelizmente nem sempre é isso que norteia alguns beneficiários de favores e prebendas que vociferam segundo as suas próprias conveniências.
Nestas linhas, venho dizer bem do Centro de Cirurgia Cardiotorácica de Coimbra (CCC) que completa hoje, precisamente, 25 anos de idade. Só poderei ganhar alguma coisa com isto se alguma vez me levarem atempadamente a Coimbra, de tinhonhi, para entrar para o “Clube do Fecho Éclair”, nome irónico posto àqueles que são operados ao coração e ficam com uma costura bem feitinha sobre o esterno. Mas não conheço lá ninguém e, de nome, só reconheço o Professor Manuel Antunes, responsável por alguns amigos meus ainda andarem por aí, dez e quinze anos depois de lhes ter partido o esterno e lhes ter posto o coração a palpitar cá fora, até ao final da reparação da avaria.
Durante este quarto de século que hoje se completa, o CCC operou cerca de 40 mil doentes sem que, até hoje, ali exista uma lista de espera.Com uma média de 1850 operações anuais, cerca de oito por cada dia útil, este serviço, integrado no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), é uma referência portuguesa a nível internacional. O CCC salvou muitos milhares de portugueses, sem lhes perguntar quanto ganhavam e se podiam pagar. Note-se que a Unidade de Tratamento Intensivo das Coronárias (UTIC) de Santa Maria, mais a cardiocirurgia de Santa Cruz, em Carnaxide, e os serviços de cirurgia vascular de Santa Marta são outros pontos de excelência deste nosso tão mal tratado país. Não é bonito?!
Que feliz que eu fico por poder aqui elogiar este serviço, do CCC, precisamente quando faz 25 anos de idade, sobrevivendo a governos, ministérios, ministros, ministras e administradores, sem permitir que o estraguem como fizeram em muitas outras parcelas do Serviço Nacional de Saúde! 
In Sorumbático, 22 Março 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

O fim da rebaldaria?!

Por Joaquim Letria 
ALGUNS gestores e administradores portugueses, de certas empresas públicas e privadas, estão entre os mais bem pagos do mundo, vamos lá saber porquê, se atendermos aos resultados e aos graus de dificuldade do trabalho que têm que fazer. 
O CEO (presidente executivo) norte-americano mais bem pago em 2012 foi Mike Duke, do Walmart. Ele recebeu 10 mil euros à hora, o que é mais do que um trabalhador médio, mais a família e amigos, todos juntos, recebem num mês de trabalho. Mike Duke foi o 46.º gestor mais bem pago na América durante o ano passado, segundo a revista Forbes
Um gestor de empresa, pública ou privada, recebe hoje 340 vezes mais do que um trabalhador médio. Em 1980, um gestor recebia 42 vezes mais. Durante décadas os salários, prémios e bónus dos gestores e administradores não pararam de subir, com as diferenças a aumentarem cada ano até chegarem às proporções escabrosas de hoje. A tirania desta nova classe de monarquia no topo das empresas, além de se aumentar a si própria sem critério, considera-se com direito a tudo sem ter de prestar contas a ninguém. Entretanto, para melhor podemos avaliar o seu trabalho, conseguiram que um salário dum trabalhador médio, que era de 8 euros à hora em 1968, passasse para um máximo de …4,70 euros, apesar da produtividade ter duplicado neste período. 
Barack Obama anunciou que deseja que o salário mínimo, nos Estados Unidos, seja de 9 dólares à hora, em 2015, isto depois de ter dito em campanha eleitoral, em 2008, que queria que esse mesmo salário, em 2011, fosse de 9,5 dólares, o que só mostra que quem vive do seu trabalho está muito bem entregue! 
A defesa dos gestores reside no argumento de que os bónus e os salários monstruosos que auferem são necessários para atrair os melhores para o negócio. Mas os suíços já não vão nessa conversa. Depois de verem o seu banco gigante UBS perder biliões em negócios e os seus laboratórios farmacêuticos Novartis despedirem milhares de trabalhadores e técnicos, os eleitores helvéticos decidiram, em referendo, exigir que os accionistas aprovem os montantes dos prémios e salários de quem nomeiam para lhes cuidar dos negócios. Esta decisão de cidadania está a preocupar as cabeças das companhias pelo mundo fora. Será que a rebaldaria vai, um dia, acabar!? 
In Sorumbático, 20 de Março 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um papa híbrido

FOMOS habituados a estarmos divididos entre a preservação do melhor do nosso passado, das nossas tradições, das práticas culturais, crenças e preconceitos e, ao mesmo tempo, ficarmos repartidos entre tudo aquilo que conhecemos para trás e o desconhecido da mudança, do futuro e do progresso. 
Para uma religião com dois mil anos de História, esta é uma questão de grande importância, em especial para todos os membros da instituição que a promove e defende. Francisco, o novo Papa, é apresentado como um ser profundamente conservador, recusando a mudança no que se refere ao casamento, ao sexo e ao aborto, mas mostrando-se profundamente sensível em tudo que tem a ver com os problemas sociais, o que faz do novo papa um híbrido. 
Jesus foi contra o julgamento, a exclusão e o castigo, mas os seus sermões, em particular o da montanha, são vistos como uma palavra de esquerda, porque comprometida com os pobres, os amantes da paz e das boas aventuranças, enfim com todos aqueles com condições para entrarem no reino dos céus.
Possivelmente, fazer com que os bons pensamentos de Jesus nos sirvam e nos acompanhem no século XXI pode bem ter atravessado o espírito de alguns dos cardeais que escolheram Jorge Bergoglio para Francisco I. Pessoas daquela idade e com aquela experiência de vida tendem a preocupar-se mais com o longo prazo e com as coisas eternas.
Nós, simples humanos, observamos tudo isto e reflectimos acerca do que nos rodeia e gostaríamos de preservar a religião que diz respeito a cada um de nós, qualquer que ela seja, defendendo-a dos assaltos do consumismo e do materialismo que tanta injustiça têm espalhado à nossa volta. 
 (In Sorumbático, 18 de Março 2013)

sexta-feira, 15 de março de 2013

“GRÁTIS NÃO TRABALHO”

HÁ UMA confusão grande no mundo da Informação. Muitos jornalistas lamentam a sua perda de influência acusando a falta de investimentos publicitários, o que certamente, não justifica tudo, enquanto outros parecem aturdidos sem perceberem o que está a acontecer; Uns e outros parecem animar-se com um único facto, mas muito enganador – se ainda não se publicou a notícia da grave crise do jornalismo, é porque esta não existe. 
A solução escolhida até agora é errada. Dizimar as empresas e aplicar austeridade não vai resolver nada nem salvar ninguém, tal como campanhas publicitárias institucionais nunca ajudaram quem quer que fosse. A pouco e pouco, vamos ver servirem-se do jornalismo de indignação, passando também os escândalos a figurarem no receituário do chamado jornalismo de referência. Entretanto, legiões de jornalistas desprotegidos e sem favores buscam sobreviver de traduções e colaborações episódicas, porque colaboradores avençados e o privilégio de ser regularmente explorado é território de muito pouca gente, enquanto os outros vêem os soldos diminuírem e os salários desaparecerem.
Em Espanha, há muito pouco tempo, a “Associação de Imprensa” teve de fazer uma campanha onde se dizia “Grátis não trabalho”, o que por si só diz tudo…
Mas a verdade é que quando um jornalista só encontra trabalho não remunerado, pode dedicar-se ao trabalho em que mais acredita e no qual se revê, mesmo que não seja rentável. O embaratecimento dos custos também permite a cada um o empreendimento dum novo projecto através do qual se pode prestar um serviço à sociedade. Os outros, deixá-los! Aproximaram-se tanto do Poder que agora ardem com ele e ainda vão passar muito tempo a lembrar porque é que o jornalismo é imprescindível à Democracia.. Ah! pois é… 
In Sorumbático – 15 Mar 13